CLAIRE: Quando eu penso no começo dessa história, eu vejo duas moças se jogando juntas no vazio.
Foi assim… A única coisa que a gente tinha era uma ideia que surgiu numa conversa num bar, a noite. E conversando a gente chegou a conclusão de que queríamos explorar essas duas ferramentas
primitivas, ancestrais, que são: a percussão e a voz, o canto.
Foi assim que surgiu “Tempo Canta” e depois virou o “Em Tempo”.

RODRIGO: Em 2015, a gente fez parte da Conferência de Arranjo Produtivo Local, em Brasília. Depois houve um convite pra gente apresentar o trabalho no espaço cultural daqui de Ribeirão, a UGT. Foi nesse convite que a gente viu uma chance de aprofundar e pesquisar ainda mais o que queríamos enquanto sapateado, música, narrativa e cena.

ANA LUIZA: Em 2016, a artista plástica Ana Clara Joly propôs uma estrutura circular. Era como um grande
relógio desconstruído, sabe? Com seus elementos como ponteiros organizados no espaço.


Como elenco do “Em Tempo” nós conversamos e experimentamos muito pra trazer os efeitos, as ações da passagem do tempo durante o espetáculo. No processo criativo, a gente utilizou ampulheta, metrônomos. Com a prática, buscamos símbolos como a ação de riscar o chão com giz e a presença de muito, muito, muito
glitter dourado.
Nisso de transformar com o tempo, também tivemos pelo menos três figurinos. Sendo que a terceira e última versão foi finalmente pensada por uma figurinista, a Zezé Cherubini.
RENATA DEFINA: Eu acho que a gente nunca quis criar um “espetáculo de sapateado”. Acho que o “Em Tempo” foi surgindo, foi se moldando, e a gente, elenco, sempre esteve aberto e atento às camadas que fossem aparecendo.
Então, veio a poesia. Veio o sapateado à capela.
Veio uma preocupação com o deslocamento nas órbitas, nas tábuas. Mas também veio uma delicadeza com as nossas pausas, um cuidado com os nossos respiros. Então, nesse sentido eu acho que é um espetáculo bem híbrido, bem intimista e ao mesmo tempo bem sensível a todo esse processo.

CLAIRE: Naquela época eu estava muito fascinada pela enorme variedade de estilos da música popular, tanto no Brasil como no mundo. Então, expressões tão variadas de países diferentes, de povos diferentes. Muitas vezes como uma forma de resistência. Eu buscava inspiração nessas canções, nessas histórias.
E o repertório do “Em Tempo” acabou refletindo esse entusiasmo.

RENATA: Eu falo que a dramaturgia do “Em Tempo” foi um marco para a Pé na Tábua, porque a gente contou com diversos colaboradores durante todo o processo de criação que foi bastante extenso. Foi a primeira vez que a gente trabalhou com um provocador cênico, que entendeu o nosso desejo de continuar criando coletivamente, sem uma direção artística.
Ele conseguiu nos tirar da zona de conforto e ao mesmo tempo nos ajudou a fazer escolhas estéticas de um modo mais consciente.
MARCELO: A Companhia Pé na Tábua sempre me atravessou por sua excelência artística. Com o convite que recebi em provocar o processo do “Em Tempo”, veio muito à tona o desejo de jogar com o tempo. Em jogar com o grupo. Em jogar com o estado de presença. A Companhia entrou nessa dança e se permitiu arriscar, lançando seus pés da tábua e levando a atenção também para o olhar.
Eu tenho uma lembrança do dia em que a Claire, que faz a trilha ao vivo do espetáculo, nos oferece pro trabalho a imagem dos ovos. Ela pega um ovo de galinha, que estava vazio por dentro, mas que ninguém sabia, e joga num chão de taco de madeira. A gente naquele momento destina toda a atenção para ver o esperado, que é a gema
se espalhar pelo chão.
Mas nada acontece.
Isso nos conecta a um instante único do estado de surpresa.
WASHINGTON: Foi um desafio, na época que fui convidado para iluminar os espetáculos da Pé na Tábua. Até então eu só tinha criado e operado a iluminação dos espetáculos em que eu havia dirigido.
Então, era uma outra perspectiva. Ser só iluminador e criar a partir disso. Foi uma grata surpresa e uma grande escola. Eu aprendi e cresci muito criando e operando a luz da Pé na Tábua.
Durante esse tempo, tive a oportunidade de estar em vários espaços culturais e os espetáculos da Companhia
têm essa característica de se adaptarem a diversos espaços. Isso acabou rendendo boas histórias, como um dia em que eu operei a luz de serviço só dimerizando os spots, aumentando e diminuindo a luz.
Mas em contrapartida, tinham espaços que ofereciam tantos equipamentos que eu não sabia nem como utilizar.
MARCUS: A sonorização para o espetáculo foi uma soma de um processo criativo, artístico, técnico e também político.
Do processo técnico, eu tive que identificar quais seriam os instrumentos utilizados no espetáculo e como cada um deles iria reagir aos diferentes espaços no qual o espetáculo iria ser realizado. Existiam espaços que não eram
teatros apropriados, como ginásios, quadras esportivas. E tudo no espaço interfere no som: o ar-condicionado, a quantidade de pessoas que estão assistindo, a estrutura do espaço, se ele é de madeira, se é de concreto.
Projeto realizado com o apoio do Ministério do Turismo, Secretária Especial da Cultura, Lei Aldir Blanc e Governo do estado de São Paulo.